Cruzamo-nos apenas uma vez, uma única vez como se Portugal fosse um país enorme com milhões de habitantes. Uma índia ou América pejada de pessoas.

Aqui a probabilidade de não nos conhecermos, num país de dimensões mínimas e lugares comuns, era muito menor que a inevitabilidade de nos andarmos a esbarrar por aí.

Os spots são os mesmos, as festas conhecidas e as férias inevitavelmente levam-nos todos, mais cedo ou mais tarde, rumo ao sul.

Mesmo assim só te vi uma vez. Ias participar num debate como orador. Chegaste atrasado.

Pensei-te arrogante, egocêntrico, daqueles que acham que tudo e todos podem esperar.

Comentei-o com a colega do lado, garantiu-me que não, devias ter tido um imprevisto, porque eras um querido!

Duvidei. Os teus olhos até pareciam sorrir mas o teu aspecto era agressivo. Cabelo desgrenhado, óculos pesados e ar sério e compenetrado.

Confesso-te que me causou estranheza todos se levantarem com cordialidade para te cumprimentar. Vi respeito no olhar de quem te falava. Fiquei intrigada.

Irritavas-me, contudo não me eras indiferente.

Alguns anos depois, não me lembro ao certo quantos voltei a encontrar-te.

Continuas com as roupas fashion, se calhar às vezes até excessivas para a idade e para os locais por onde te moves. O ar distante, os olhos ilegíveis. No teu caso não mostram nem uma nesga da alma. E eu não sei porque teimas em escondê-la. Guardas algum segredo? Não gostas de quem és? Ou só tens medo de te mostrar?

És daqueles difíceis de conhecer. Serás tu um diamante em bruto ou um pechisbeque extremamente bem falsificado?

Só um olhar mais atento para além da aparência pode dar-me algumas pistas.
Porque o teu semblante continua duro, agressivo, fechado.

A vida ensinou-me a ver que a aparência às vezes é uma falácia.

Como aquela dos cordeiros com pele de lobo e dos lobos com pele de cordeiro.

Eu que tenho uma queda por homens belos e perfeitos -confesso – daqueles louros, altos e de olhos azuis (fico extasiada quando vou a Berlim ou mesmo a Londres) e que por muitos anos cometi a insanidade de acreditar que por dentro desses embrulhos irrepreensíveis, desses protótipos de anjos habitavam seres tão belos em sentimentos e valores como na aparência começo a acreditar que me enganei!

A vida, tal como as pessoas, é muito mais complexa. Nem sempre um belo embrulho traz um bonito presente, assim como uma caixa velha e empoeirada pode guardar um tesouro precioso.

Escreves, e talvez seja aí que espelhas a tua alma. A cultura, a sensibilidade e a inteligência transbordam das tuas palavras lânguidas e sensuais. Entusiasmadas e entusiastas, complexas e claras.

Talvez sejas assim, talvez sejas tudo isso. E talvez a dureza do teu rosto seja a tua defesa, os muros que erigistes para proteger a tua preciosa alma.

Tens razão, eu é que só descobri agora que o que é valioso tem de ser bem protegido.
Não se pode dar o melhor de nós a qualquer um, sem critério nem método. Correndo-se o risco de se acabar esgotado e vazio.

Talvez o teu corpo proteja a tua alma.

Mas um dia vais ter de abrir umas frestas para que alguém possa espreitá-la, quem sabe até conhecê-la de perto e depois quiçá amá-la como ela merece.

O caminho não é para se fazer sozinho. O percurso com o outro é mais enriquecedor, mais nutritivo e permite-nos espelharmo-nos e conhecermo-nos.

Se tiveres coragem tira a tua pele de lobo e deixa ver, nem que seja por momentos, esse cordeiro doce e sensível que tens escondido do mundo. Ele vai agradecer!

E não sei se é importante para ti, mas vais arrancar-me um sorriso dos lábios! Daqueles sinceros e verdadeiros. Cheios de esperança e de calor.