Outro dia tive um sonho, estranho como são todos!

Eu era pequena e tinha as pernas presas por cordas. Junto a essas cordas havia um daqueles caniches que me mordia e me fazia olhar para baixo.

Precisava de o vigiar constantemente para que não me desse mais uma dentada nos tornozelos já feridos.

Esse estado de alerta desviava-me do meu foco – O futuro, a aprendizagem, o crescimento.

Como olhar para a frente se o passado nos trava?

E o passado pode prejudicar-nos muito mais do que imaginamos. Pode limitar-nos, porque mesmo quando todas as evidências nos dizem – Tu és capaz, tu tens valor, tu és bom – Há um cachorro que nos morde as pernas e nos desvia do caminho onde queremos chegar.

A sorte é que as crianças também crescem, ganham recursos e defesas, e as mordidelas dos cachorros deixam de doer tanto.

Já adultos podemos descobrir algo maravilhoso – Que temos força suficiente para chutar para bem longe os caniches que nos atrapalham a vida, cicatrizar as feridas e seguir em frente.

É um acto de coragem. É um encontro com o medo. É um salto no vazio. E o que virá depois?

Quando mais precisamos as respostas não chegam, escolher é sempre um acto de fé.

Só mais tarde poderemos validar ou não a nossa opção. Mas no momento da escolha estamos sozinhos, sem certezas, somos só nós, connosco!

Parecemos tão pequenos e no entanto só nos podemos valer desse pouco que somos nós.

Ao caminhar descobrimos que o próprio percurso é mais importante que a meta. É ele que nos ergue, que nos ensina e que nos fortalece.

O sucesso pode ser a resposta final mas para avaliar o alcance do mesmo não podemos ver só onde chegamos, é muito importante saber de onde partimos.

Quantos cães tínhamos a morder-nos os tornozelos quanto queríamos andar?

Quantas feridas tivemos que sarar sem nos perdermos nelas próprias?

Existem pessoas extraordinárias, verdadeiras inspirações para os demais.

E as vidas delas não foram perfeitas, pelo contrário foram cheias de problemas, contratempos e frustrações. Elas tiveram de acreditar em si próprias quando os outros não lhes davam crédito. Então como foram capazes? Porque foram resilientes o suficiente para lutar no que acreditam, para ter fé no futuro e esperança no coração.

Cada um de nós tem um caminho único. Por isso não dá para dizer que o vizinho do lado tem mais sorte ou azar. Cada um enfrenta os seus cães, tem os seus desafios, o seu percurso e os recursos necessários para percorrê-lo.

O Papa Francisco é o autor de uma das minhas frases preferidas “ Deus dá as maiores batalhas aos seus melhores soldados”.

Acho que assim é, senão não teríamos pessoas com histórias de vida tão difíceis a chegar tão longe.

As dificuldades humanizam-nos, fazem-nos criar empatia e compaixão para com os outros.

Não há nada mais triste que alguém que não consegue pôr-se no lugar do outro, que só consegue ver-se no centro do mundo. Que mundo tão pequeno o em que essa pessoa enxerga.

Por outro lado quem vê as dificuldades, as suas e as dos outros, têm coragem de travar batalhas e de as vencer, ou não, mas mesmo assim segue caminhando, é alguém que se fortalece, é alguém que se ama e que se torna invencível.

Cada um tem cachorros que os mordem, mas tem também a possibilidade de os afastar da vida e seguir o caminho que quer, que acredita que é o seu.

Não deixe que os outros lhe digam como viver, viva como acredita que deve.

” Ao compreender sua verdadeira natureza e o seu objectivo, sua vida estará transformada para sempre”
(Brian Weiss)