Ia no carro distraída com o trânsito a caminho de casa, assim que ouvi primeiros acordes de “When we were young” aumentei o volume do rádio.

Definitivamente adoro esta música da Adele, ainda que toque vezes sem conta na rádio até nos deixar enjoados.

Não pude deixar de pensar nas palavras desta jovem e brilhante cantora quando lançou no fim do ano passado o álbum Hello!

Dei comigo a pensar na entrevista que ela deu e que marcou bastante por ter dito que chegou a pensar em desistir da música! Foram três anos de ausência depois de um sucesso retumbante. Citando as suas palavras à BBC ela disse- “Senti que eu nunca iria terminar este álbum. Foi um processo longo e quis desistir, (…) achava que as minhas ideias haviam terminado e que tinha perdido a minha habilidade de escrever uma canção.”

Como ela estava equivocada – Resultado: novo sucesso estrondoso. Podia dar-vos aqui dezenas de exemplos do que estou a tentar dizer, mas vou dar-vos mais dois.

Tenho uma amiga que pinta maravilhosamente bem. Nunca havia pintado antes na vida, começou aos 50 anos, e os quadros dela são de uma sensibilidade e beleza como tenho visto poucos. Além de que tocam assuntos pertinentes e sempre actuais. Por mim tinha as paredes de minha casa preenchidas com as suas telas.

Não pintou antes talvez por medo, infelizmente ainda não tive oportunidade de lhe perguntar.

Outro exemplo – uma amiga que escreve melhor que muitos dos escritores de sucesso que vimos nas vitrines das livrarias todos os dias.

Os seus textos transmitem aquela angústia característica dos bons escritores, a capacidade de levantar o véu sobre as questões que realmente importam, a complexidade de querer e não querer, a complacência para com o destino e até o gosto pelos finais tristes e sombrios que tanto encantam leitores e críticos.

Quando questionada porque não dá a conhecer ao mundo algo que faz tão bem, encolhe os ombros lacónica, não se quer expor, não se quer pressionar, não se quer sujeitar às opiniões alheias.

Com isto quero dizer que tenho verificado quanto mais as pessoas são brilhantes mais medo têm, mais inseguras são, mais frágeis e permeáveis se tornam às criticas de outros – habitualmente muito menos brilhantes que elas.

Cada vez me apercebo mais que o medo é proporcional ao talento.

Como poderíamos não gostar da Adele, com a voz magnífica que tem?

Concordo que o perfecionismo é importante. A constante insatisfação consigo próprias, a auto exigência a que se sujeitam e com que se maltratam, faz com que estas pessoas se desafiem e superem constantemente.

Mas é importante que saibamos o nosso valor, que tenhamos a certeza do que fazemos bem, para que esse talento não se dilua em si mesmo, na sua neura, nem na sua exigência insaciável.

Claro que fazemos algumas coisas melhores que outras, que há momentos de maior ou menor inspiração, mas o nosso valor anda sempre connosco. E os grandes acertos podem chegar após pequenos ou mesmo enormes erros.

Mas o que fica do que passa é sempre valorizado.

Não desistamos dos nossos talentos, dos nossos sonhos e daquilo que sabemos – sim porque lá no fundo sabemos sempre, que fazemos bem.

Se nascemos com esse dom o universo merece que o compartilhemos.

Escrevo isto para outros mas também para mim. Comecei com exemplos de outras pessoas para dizer a mim própria que não devo desistir. Depois de um primeiro livro, apavora-me o segundo. Escrevo e fujo dele, escrevo e fujo dele, mas isso não faz sentido. Se gostarem ótimo, senão também não será tempo que perdi, será tempo em que aprendi.

Os nossos sonhos não devem nunca ser postos numa gaveta, o nosso talento também não!

*É importante salvaguardar que este título se refere a sonhos nossos, que dependem sobretudo de nós, e não a desejos impossíveis ou inviáveis de concretizar que precisemos de contar com os outros, com acasos ou imponderáveis pouco realistas!