Era verão eu e uma amiga decidimos que tínhamos de fazer uma boa ação, por amizade à Mariana, abdicámos de um dia de praia para ir ao primeiro aniversário do filho dela.

O Mateus ia fazer um ano e não o víamos desde o seu nascimento, falha imperdoável entre amigas verdadeiras. Mas a nossa vida de mulheres solteiras e sem filhos era tão diferente…

Quase que se podia dizer que tínhamos fusos horários distintos, apesar de vivermos no mesmo país. A hora a que eles acordavam era quando fazíamos o nosso ciclo de sono mais profundo e a hora a que se deitavam ainda estávamos a estacionar o carro perto do restaurante onde íamos jantar.

Voltando à visita, ela foi marcada num sábado à tarde, um horário conveniente para todos, à beira da piscina do condomínio onde moravam.

Chegamos as duas esvoaçantes, saltos altos, cabelos arranjados e maquilhagem retocada mas para os nossos padrões até estávamos discretas!

Nas mãos presentes mimosos com lacinhos e ursinhos azuis que nos faziam sonhar com os nossos próprios filhos um dia.

Assim que pusemos a vista no cenário à nossa frente tivemos as duas a tentação de darmos meia volta e irmos embora. Resistimos! A nossa amiga merecia o nosso esforço.

Várias mulheres da nossa idade com ar de extra terrestes e numa luta desenfreada com crianças que choramingavam ou saltavam para a piscina.

Escusado será dizer que nós que estávamos bem é que nos sentimos mal, muito mal, quase umas criminosas por estarmos ali sem olheiras, serenas e sorridentes. As outras quase nos trucidavam com o olhar. Fingimos que não percebemos e tentamos manter uma conversa civilizada.

A mesma era sobre fraldas, dentes e noites mal dormidas. Até era didático afinal queríamos aprender para quando nós próprias fossemos mães.

Mas elas não queriam dialogar connosco, queriam vingar-se, como podíamos ser tão insensíveis ao ponto de não termos filhos? Como podíamos permanecer solteiras e estarmos com aquele sorriso?

No fundo eramos umas encalhadas que só nos preocupávamos com coisas secundárias, mulheres superficiais e incompletas.

– Toma! – pensei – Quem te manda vires-te meter neste mundo pueril das senhoras casadas?
Elas enchiam a boca para falar dos SEUS maridos, das SUAS casas, dos SEUS filhos, agigantando-se cada vez mais perante nós.

Eu queria ter filhos, queria muito, mas antes disso tinha que encontrar um parceiro que considerasse à altura de ser pai dos meus rebentos. Mas por razões que não vem aqui ao acaso isso não tinha acontecido e então? Tinha que ser crucificada? Será que uma mulher é mais que outra porque tem marido e filhos?

Não entendia aquela postura ressabiada dessas mulheres que se diziam tão realizadas. Era um contrassenso!

Bem antes do pôr-do-sol todas essas mulheres começaram a despedir-se, tinham que ir para as suas vidas perfeitas… Dar banho às crianças, fazer o jantar e a maioria dos maridos já tinha ligado.

Havia uma ansiedade no ar que era contagiante. Às tantas dei por mim nervosa a olhar para o relógio, com pressa, só não sabia para fazer o quê, nem para ir para onde.

Pus em prática as minhas aulas de Yoga, respira, prende o ar na barriga e solta em três vezes. Dez repetições e estava nova. Bendita yoga!

Já sozinhas a apreciar o fim de tarde confessei o meu mal-estar à Mariana, até porque ela era diferente, era mãe, mas ao contrário das outras estava bonita, com um ar feliz e descontraído.

– Mariana por favor adoro ver-te mas vir para aqui com estas tuas amigas a quem porque digo que vou sair à noite ou que comprei uns sapatos de 200 euros simplesmente porque me apeteceu e posso pagá-los ou que tenho um encontro com um amigo colorido me olham horrorizadas como se eu fosse uma grande maluca é demais.

Pergunto-me se elas antes de casar não iam às compras fora de horas, não faziam extravagâncias ou não tiveram namorados?

Ela sorriu – Amiga não te iludas, muitas delas que te atacam são frustradas, elas fizeram esta escolha, adoram os filhos sim, mas tem uma vidinha que muitas vezes não interessa a ninguém, mas e agora vão queixar-se ou vão manter esta mentira? Preferem a segunda.

Claro que não são todas assim, eu por exemplo tenho dias super cansativos, mas tenho um marido que adoro, que me ajuda com as crianças e que faz questão que eu tenha tempo para mim e para as minhas coisas. E se me perguntares estás feliz? Eu digo-te estou muito feliz e a minha família realiza-me profundamente. Mas não te julgo porque estás solteira, não te humilho porque perdes tempo a arranjar-te em vez de andares de volta de fraldas e biberons. A tua vida é a tua vida, eu não tenho que julgar nem achar que ela é mais fácil que a minha.

Eu continuava magoada, mas porquê essa necessidade de nos escarrapachar que somos solteiras, que ninguém nos quer e que elas são fantásticas só porque tem maridos e filhos? Maridos barrigudos e chatos que eu se decerto também não quereria nem dados.

Sabes porquê? é que elas provavelmente estão com os maridos por causa do empréstimo da casa, da mensalidade do colégio de luxo e das férias de verão, e se quiserem mudar as coisas perdem tudo onde investiram e vão sentir-se vazias.

Por outro lado tu estás linda, elegante e de certeza que apesar de dormires muitas noites sozinha tens uma vida sexual mais ativa que elas dormem todas as noites com o marido ao lado. Vocês ao aparecerem aqui são o espelho de que existem outras opções senão mais felizes pelo menos mais sinceras.

Quem vive de aparências não aguenta a realidade, então as realidades que não convém talvez possam ser destruídas… Foi o que tentaram fazer… como não conseguiram… foram-se embora. O que os olhos não veem o coração não sente. Mas não importa, o importante agora é brindar com champanhe que hoje o Miguel dá banho aos miúdos e temos tempo!

Esticaram as três os braços! Bendita amizade entre solteiras e casadas… mas desta estirpe!