Cada vez que vejo nos noticiários as estórias de centenas de portugueses que deixam o país à procura de uma vida melhor fico incomodada. Quando observo os pais no aeroporto a despedirem-se dos filhos apetece-me chorar com eles.

Todos conhecemos esta triste realidade que é ter que partir à procura das oportunidades que não encontramos aqui.

Às vezes não há solução, ou as alternativas que surgem são tão fracas que nem as consideramos.

Olho com admiração para quem parte e acredito que, um dia quando voltarem, se voltarem, farão deste um país melhor, mais evoluído, mais justo.

Mas olho também com admiração para os que ficam, para aqueles que têm a coragem de se resignar a trabalhar na caixa de um supermercado quando têm um canudo de gestão debaixo do braço.

Dos advogados que substituem a argumentação dos tribunais pela de vender imóveis como corretores imobiliários.

Dos arquitetos que trocam a arte do traço pela arte de equilibrar uma bandeja num restaurante.

Aceitar ganhar 600 euros quando já se ganhou 1500 ou 2000 é muito difícil. Entregar a casa ao banco e cortar o seguro de saúde é como cortar na carne. Tirar os filhos de um colégio para uma escola pública é para qualquer família um sinal de falhanço.

Falta de ambição, dirão alguns! Mas nem sempre concordo.

Nem todos dão mais valor à vida profissional do que ao resto. E se calhar para uma mãe de crianças pequenas é mais importante estar perto dos filhos ainda que a ganhar pouco e sem estar realizada profissionalmente que deixá-los entregues aos avós para ir para fora.

São decisões duras de tomar, mas para as crianças o tempo que investimos nelas é mais importante do que o que lhes damos materialmente.

Eles querem atenção, carinho e brincadeira. Nem sempre é assim mas muitas vezes a vaidade do agregado familiar exige roupa de marca, escolas com nomes sonantes e tablets de última geração.

É claro que tudo isto é importante, mas o que fica do que passa é o convívio, o dia-a-dia e a cumplicidade dos momentos juntos.

Se eu gostava de ser empregada de mesa quando sonhei e estudei para ser professora? Claro que não. Não que algum trabalho seja menos digno que o outro, mas cada um merece ter a oportunidade de seguir a sua vocação.

Se para um professor é mais duro trabalhar como empregado de mesa em Portugal que em Londres? É com certeza porque aqui vão dizer – “coitado ao que ele chegou”, enquanto em Londres, vão pensar: ” é de louvar a simplicidade e empenho deste jovem que não baixou os braços”. E estes corajosos um dia hão-de dar a volta, porque não há mal que sempre dure…

Aqui tudo parece ser mais difícil, por isso admiro a coragem dos que partem, mas sublinho admiro ainda mais a coragem dos que ficam! Pelos nossos filhos, pelos nossos pais, por nós e por Portugal, ainda havemos de fazer deste país um lugar para todos!